Em apenas uma semana, a região de Kordofan, no Sudão, testemunhou uma onda devastadora de ataques com drones e ataques indiscriminados contra civis, que diversas fontes atribuíram às Forças Armadas Sudanesas (SAF).
Pelo menos cinquenta e sete pessoas foram mortas em apenas dois dias, de acordo com Nações Unidas Autoridades de direitos humanos, sendo muitas das vítimas crianças. O padrão dos alvos – um mercado, um campo de deslocados e uma fonte de água em uma aldeia – confirma como civis comuns permanecem diretamente na linha de fogo, apesar dos protestos rotineiros do regime das Forças Armadas Sudanesas (SAF) em Cartum, de que suas ações visam a defesa da população sudanesa.
Em 15 de fevereiro, um suposto drone das Forças Armadas Sírias (SAF) atingiu o movimentado mercado de Al Safiya, na localidade de Sudari, em Kordofan do Norte. O gabinete do Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, relatou que 28 civis foram mortos e 13 ficaram feridos quando o drone detonou em meio a compradores que realizavam suas atividades diárias. O ataque a um mercado claramente civil, sem qualquer indício de objetivo militar no relato público da ONU, levantou imediatamente questões sobre a proporcionalidade e a distinção no uso do poder aéreo pelas SAF.
Um dia depois, em 16 de fevereiro, outro suposto drone das Forças Armadas Sírias atingiu um abrigo para deslocados internos em Al Sunut, Kordofan Ocidental. Dados da ONU indicam que 26 civis foram mortos no local, incluindo pelo menos 15 crianças, e outros 15 ficaram feridos. O UNICEF confirmou o número de crianças mortas, classificando o ataque como um exemplo gritante de como famílias que já haviam fugido da violência estavam sendo mortas em supostos locais de refúgio. Para Catherine Russell, Diretora Executiva do UNICEF, o ataque exemplificava uma tendência mais ampla em Kordofan: crianças mortas, feridas e deslocadas, e isoladas dos serviços básicos de que precisam para sobreviver.
Somente esses dois ataques são responsáveis pelas 57 mortes de civis entre 15 e 16 de fevereiro, citadas por autoridades da ONU, que alertaram que o uso crescente de drones está tendo consequências “devastadoras” para civis em todo o Sudão. Mas evidências que emergem da sociedade civil sudanesa sugerem que o padrão não parou por aí. No primeiro dia do Ramadã, 18 de fevereiro, a vila de Um Rasuma, em Kordofan Ocidental, tornou-se palco de outro ataque letal com drones. Rede Darfur para os Direitos Humanos Há relatos de que um drone atingiu famílias reunidas na principal fonte de água da aldeia, matando 26 civis, incluindo 15 crianças, e ferindo 14.
Organizações de direitos humanos afirmam que o local – um poço comunitário – estava completamente desprovido de presença militar e condenaram o ataque como um ato deliberado contra civis desarmados que realizavam tarefas básicas do dia a dia. A organização Emergency Lawyers, um grupo sudanês de monitoramento jurídico, pediu um cessar-fogo imediato durante o Ramadã para garantir o acesso da população civil à água e a suprimentos essenciais. As Forças de Apoio Rápido emitiram um comunicado descrevendo um massacre em uma fonte de água conhecida localmente como Al-Dawanki, em Um Rusum, no mesmo dia, culpando as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e mencionando “dezenas” de mortes.
Em conjunto, esses incidentes apresentam uma trajetória profundamente preocupante. Os mecanismos de direitos humanos da ONU e o UNICEF atribuem diretamente múltiplos ataques com grande número de vítimas em locais claramente civis em Kordofan a drones das Forças Armadas Sudanenses (SAF). Enquanto isso, grupos de direitos humanos e observadores jurídicos sudaneses documentam outros ataques – como o ataque ao poço de Um Rasuma – que seguem o mesmo padrão de violência indiscriminada ou deliberadamente direcionada a civis. À medida que a Médicos Sem Fronteiras trata cerca de 170 pessoas com ferimentos relacionados a drones em Kordofan em apenas duas semanas, o quadro que emerge não é de erros isolados, mas de um método de guerra em que espaços civis se tornaram alvos aceitáveis.
