Na Comissão de Drogas da ONU, em Viena, em 9 de março de 2026, o presidente colombiano Gustavo Petro proferiu um discurso que criticou duramente a proibição e expôs as raízes sociais do cultivo de coca na Colômbia. Mas a lição mais ampla de sua intervenção, e do próprio debate político europeu, não é que a legalização irrestrita seja a solução. É que a política de drogas precisa ir além de falsas dicotomias: os Estados precisam de prevenção e educação mais robustas, investimentos significativos em comunidades vulneráveis, cooperação internacional baseada em inteligência e ações contínuas para desmantelar as redes criminosas e financeiras que lucram com o vício e a violência.
Discursando no dia da inauguração do 69ª sessão da Comissão das Nações Unidas sobre Drogas Narcóticas Em Viena, Petro fez uma das intervenções mais politicamente carregadas do dia. Seu discurso, publicado pelo presidência colombiana, desafiou décadas de ortodoxia sobre a “guerra às drogas”, ao mesmo tempo que obrigou os delegados a confrontar uma questão que assombra a América Latina há anos: o que acontece quando a proibição pune os pobres, enriquece o crime organizado e ainda assim não consegue eliminar a procura?
Petro começou falando sobre a cannabis, usando-a como exemplo do que ele considera uma contradição histórica e moral. Referindo-se ao contraste entre o custo humano da proibição nos países produtores e a legalização ou normalização da cannabis em partes do hemisfério norte, ele questionou por que tantos colombianos morreram em decorrência de uma substância que agora é vendida legalmente em grandes cidades americanas. Sua resposta foi direta: “A proibição implica a criação da máfia. E a criação da máfia implica morte e violência.”
Essa frase será amplamente citada, e com razão. Ela captura a essência da crítica de Petro. Mas não deve ser interpretada de forma simplista. Seu discurso não representou um plano completo para a legalização de todas as substâncias, nem ofereceu uma abordagem permissiva em relação às drogas em geral. O que ele fez foi rejeitar a ideia de que proibições criminais por si só podem resolver um fenômeno impulsionado pelo desespero social, pela demanda global, pelo crime organizado e por fluxos financeiros massivos.
Mais do que uma escolha entre proibição e legalização
Essa distinção é importante. É possível aceitar a crítica de Petro à proibição sem concluir que a legalização irrestrita seja a alternativa óbvia. Na verdade, a conclusão mais forte de Viena é que nenhuma das fórmulas, por si só, é suficiente.
A proibição, por si só, muitas vezes alimentou mercados negros, corrupção e violência, especialmente em regiões rurais frágeis, onde os pequenos agricultores arcam com os custos e as organizações criminosas se apropriam dos lucros. Contudo, a legalização, por si só, não desmantelaria automaticamente as rotas de tráfico, a logística criminosa, os sistemas de lavagem de dinheiro ou as cadeias de distribuição multinacionais que hoje se comportam menos como antigos cartéis e mais como estruturas transnacionais de crime corporativo. Um mercado legal para uma substância não neutraliza as redes que traficam outras, nem resolve o vício, as cadeias de abastecimento predatórias, as ameaças das drogas sintéticas ou as emergências de saúde pública ligadas ao abuso.
Por isso, a interpretação mais plausível da intervenção de Petro não é "legalizar tudo", mas sim "parar de fingir que a repressão sozinha funciona". A partir daí, a verdadeira questão política se torna mais séria: como os Estados podem reduzir a demanda, proteger os vulneráveis e destruir a infraestrutura criminosa de oferta?
O diagnóstico social da economia das drogas feito por Petro
Um dos aspectos mais marcantes do discurso de Petro foi sua tentativa de descrever diferentes drogas não apenas quimicamente, mas também sociologicamente. A cannabis, argumentou ele, surgiu na história moderna como uma substância associada aos protestos da juventude. A cocaína, por outro lado, pertencia a uma ordem social diferente. "A cocaína é a droga do capital, não mais dos protestos", disse ele. "É necessária para prolongar a jornada de trabalho." Em outra frase incisiva, ele a descreveu como "a droga de Wall Street".
Independentemente de se aceitar ou não essa interpretação na íntegra, o propósito político era claro. Petro tentava redirecionar a atenção dos campos da Colômbia para as sociedades que consomem, financiam e normalizam a demanda. Nesse sentido, seu discurso também representava um desafio à Europa. Como o Agência Europeia de Drogas Alerta-se que a cocaína continua sendo a segunda droga ilícita mais consumida na Europa, depois da cannabis, e sua disponibilidade em todo o continente continua aumentando.
Petro reservou uma linguagem ainda mais dura para o fentanil, que chamou de “droga da morte”. Aqui também, seu objetivo não era relativizar a cocaína ou a cannabis, mas argumentar que a disseminação de diferentes substâncias reflete crises mais profundas dentro das sociedades: solidão, desespero, pressão, competição e fragmentação social. Foi uma análise controversa, mas que ressaltou uma verdade mais ampla, frequentemente ausente das declarações diplomáticas: os mercados de drogas não são apenas um problema para a aplicação da lei. Eles também são um reflexo da desestruturação social.
Os campos de coca da Colômbia e a questão da desigualdade
O ponto forte de Petro residia na sua capacidade de associar o cultivo de coca à desigualdade e à exclusão de terras. Ele argumentou que a folha de coca na Colômbia é cultivada não porque as comunidades camponesas estejam naturalmente ligadas ao tráfico de cocaína, mas sim porque gerações de famílias rurais pobres foram expulsas de terras férteis pela violência, ficando com poucas alternativas viáveis. Em uma das frases mais claras de seu discurso, ele afirmou que o cultivo de coca persiste porque a Colômbia não conseguiu “democratizar a posse da terra e dar aos camponeses pobres terras férteis para produzir alimentos”.
Esse argumento tem implicações importantes para as políticas públicas. Se o cultivo da coca está enraizado na exclusão, então a erradicação sem reforma social se torna um ciclo vicioso. Uma plantação é destruída, outra surge. Uma família perde a colheita, outra entra no comércio. O ciclo se repete porque a lógica econômica permanece intacta.
Por isso, Petro defendeu com tanta veemência a substituição voluntária de culturas. Ele afirmou que seu governo já alcançou 42,000 hectares em esforços de substituição voluntária e argumentou que esse método é mais duradouro do que a erradicação forçada, porque as próprias comunidades participam do arranque da plantação. “A substituição voluntária significa que o coração, o espírito, o desejo do camponês excluído por gerações está do lado deste governo”, disse ele, descrevendo os agricultores arrancando fisicamente as plantas de coca “pela raiz”.
Neste ponto, o discurso merece atenção séria. Os Estados não conseguirão derrotar a produção ilícita em áreas rurais pobres a menos que ofereçam alternativas reais: estradas, mercados legais, escolas, serviços públicos, segurança fundiária, crédito e a possibilidade de uma criança construir um futuro fora da narcoeconomia.
A prevenção não é um slogan, mas um investimento de Estado.
Ainda assim, a substituição na origem é apenas um lado da equação. Se a procura se mantiver forte, os mercados criminosos adaptam-se. É aí que a prevenção se torna fundamental. O discurso de Petro apontou enfaticamente para as falhas do modelo antigo, mas Viena também destacou outro aspeto: a prevenção e a educação não podem continuar a ser complementos secundários na política de drogas. Têm de se tornar investimentos estatais essenciais.
O processo de Declaração da União Europeia Na mesma sessão, essa mesma ideia foi defendida em uma linguagem mais institucional. A UE apelou para uma “abordagem baseada em evidências, integrada, equilibrada, multidisciplinar e centrada nos direitos humanos” e priorizou explicitamente “prevenção baseada em evidências, intervenção precoce, tratamento, cuidados, recuperação e reintegração social”, juntamente com ações de segurança mais robustas. Esse equilíbrio é importante. Prevenção não é retórica moralizante. É uma estratégia prática para reduzir o número de futuros consumidores e diminuir a base de negócios do crime organizado.
Por essa razão, a educação é muito mais importante do que campanhas escolares. Ela inclui a prevenção precoce em famílias e comunidades, informações confiáveis para jovens, serviços de apoio em bairros vulneráveis, resiliência em saúde mental e investimento público a longo prazo em locais onde o recrutamento criminoso é mais fácil. A prevenção reduz a demanda ao longo do tempo. Uma demanda menor enfraquece o mercado. E um mercado mais fraco dá às organizações criminosas menos espaço para crescer.
Destruir as redes, não apenas apreender o produto.
A mensagem operacional mais forte de Petro não tinha nada a ver com legalização, mas sim com redes. Ele argumentava que as máfias de drogas modernas não são mais os cartéis isolados do passado, mas sim estruturas multinacionais envolvidas não apenas com narcóticos, mas também com tráfico de armas, exploração humana e outras formas de crime organizado. Em suas palavras, as estruturas criminosas de hoje são “multinacionais” e profundamente enraizadas nas rotas globais de dinheiro e luxo.
Isso o levou a uma das conclusões mais importantes do discurso: “Os chefões dos chefões permanecem intocados”. Ele argumentou que eles não vivem nas regiões produtoras do sul e que alcançá-los exige vontade política para seguir o dinheiro até o sistema financeiro internacional e os centros urbanos ricos do mundo.
Aqui, o argumento de Petro cruza com uma posição que muitos governos europeus reconheceriam. A UE afirmou na sessão de Viena que sua estratégia inclui um intercâmbio de informações mais robusto, melhor capacidade forense e investigativa, cooperação operacional mais profunda com os países parceiros, interrupção das rotas de tráfico e dos fluxos financeiros ilícitos, e ação contra a infiltração criminosa em portos e centros logísticos. Esse é o cerne de qualquer política séria de combate aos cartéis.
Em outras palavras, o objetivo não pode ser apenas destruir plantações ou interceptar remessas. Deve ser desmantelar redes de distribuição, congelar ativos, expor lavagem de dinheiro, apreender cadeias logísticas, processar os organizadores de alto escalão e conectar informações além-fronteiras com rapidez suficiente para acompanhar o crime organizado. O Estado precisa ser mais inteligente, mais ágil e mais coordenado do que as redes que tenta combater.
A lição de Viena
Petro veio a Viena para dizer que o antigo modelo proibitivo falhou com muitas comunidades na América Latina. Nesse ponto, seu discurso foi impactante e, em aspectos importantes, persuasivo. Mas a conclusão mais útil para a Europa e para o debate internacional mais amplo não é que a legalização deva simplesmente substituir a proibição.
A verdadeira lição é mais difícil e exigente. A política de drogas precisa abandonar as dicotomias simplistas. Os Estados não devem se apoiar na proibição como solução definitiva, visto que ela repetidamente gerou mercados negros e violência. Mas também não devem imaginar que a legalização dissolverá as estruturas criminosas que hoje se estendem por continentes, pois, na verdade, as fortalecerá.
Uma estratégia eficaz precisa funcionar em todos os níveis simultaneamente: prevenção e educação para reduzir a demanda; apoio à saúde pública para aqueles em risco; desenvolvimento rural e substituição de culturas para reduzir a produção; compartilhamento de informações e cooperação policial para desmantelar cartéis e rotas de tráfico; e investigações financeiras robustas o suficiente para alcançar os escalões superiores da economia criminosa. É aí que reside a verdadeira luta.
As The European Times já fez reportagens sobre a abertura da CND69 em Viena.O debate desta semana vai além das drogas. Trata-se de que tipo de Estado ainda tem capacidade para proteger vidas, combater o crime organizado e investir em prevenção antes que a violência se torne um negócio. O discurso de Petro trouxe esse desafio à tona de forma contundente. A resposta agora depende da disposição dos governos em passar dos slogans à estratégia e à prevenção.
