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Habemus, um enviado não remunerado da UE para a FoRB?

Mairead McGuinness é uma nomeação respeitada. Mas se a UE não lhe fornecer pessoal, orçamento ou um gabinete de facto, a Comissão corre o risco de transformar a liberdade religiosa num mero gesto simbólico de Bruxelas.

A nomeação de Mairead McGuinness pela Comissão Europeia como Enviada Especial da UE para a Liberdade de Religião ou Crença foi amplamente saudada. No entanto, as informações disponibilizadas à The European Times indica...

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Habemus, um enviado não remunerado da UE para a FoRB?

A nomeação de Mairead McGuinness pela Comissão Europeia como Enviada Especial da UE para a Liberdade de Religião ou Crença foi amplamente saudada. No entanto, as informações disponibilizadas à The European Times Isso indica que o cargo pode permanecer estruturalmente vazio: uma função baseada no voluntariado, sem equipe dedicada ou recursos independentes, com viagens cobertas apenas quando a Comissão solicita uma missão. Se confirmado, isso levantaria uma questão séria: a UE está fortalecendo sua defesa das comunidades religiosas e de crença perseguidas ou apenas recuperando sua imagem após deixar o cargo vago por 480 dias?

Uma nomeação bem-vinda — mas para qual cargo?

Quando a Comissão Europeia anunciou Mairead McGuinness como a nova Enviado Especial da UE para a Liberdade de Religião ou Crença fora da União EuropeiaA reação em Bruxelas foi imediata e, em grande parte, positiva.

McGuinness não é uma figura secundária. Ela é ex-Comissária Europeia, ex-Primeira Vice-Presidente do Parlamento Europeu e possui experiência direta no diálogo do Artigo 17 da UE com igrejas, associações religiosas, organizações filosóficas e não confessionais. O Ministério das Relações Exteriores da Irlanda saudou a nomeação, afirmando que seu trabalho apoiará os esforços da UE para proteger a liberdade de religião ou crença em todo o mundo.

Human Rights Without Frontiers A decisão foi saudada em um artigo republicado por The European Times, descrevendo o momento como “Habemus a EU Special Envoy” após 480 dias de vacância. A COMECE, Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia, também felicitou McGuinness e considerou o cargo essencial para a ação externa da UE.

Mas por trás da acolhida, esconde-se uma questão mais complexa: afinal, para que função a Comissão a nomeou?

As palavras que faltam: equipe, orçamento, escritório

De acordo com informações fornecidas a The European Times Por meio de uma pessoa familiarizada com os procedimentos de trabalho, a nova função de Enviado Especial está sendo exercida em regime de voluntariado, sem equipe dedicada e sem orçamento operacional próprio. Caso a Comissão solicite ao enviado que realize uma missão, as despesas de viagem e afins poderão ser cobertas ou reembolsadas. Contudo, o reembolso de despesas de viagem solicitadas pela Comissão não equivale ao funcionamento de um escritório diplomático.

Essa distinção é importante. Um mandato sem pessoal não consegue monitorar sistematicamente as violações. Um mandato sem recursos não consegue construir relações duradouras com as comunidades em risco. Um mandato sem um orçamento claro não consegue responder rapidamente a crises, reunir as partes interessadas, encomendar pesquisas, visitar regiões de alto risco ou manter contato regular com as delegações da UE no exterior.

Publicamente, a Comissão apresentou a nomeação como prova de que a UE leva a sério a liberdade de religião ou crença. No entanto, as informações divulgadas também demonstraram falta de clareza. The Irish Times Foi relatado que McGuinness receberia honorários e reembolsos por missões, mas também foi observado que a Comissão não especificou o valor que ela receberia, pois o montante dependeria das missões e dos dias trabalhados.

Essa formulação deixa a questão central sem resposta. Honorários ou reembolsos ocasionais não esclarecem se a UE criou um mecanismo sério de "FoRB" (Freedom of Board - Liberdade de Reputação) ou se simplesmente atribuiu um título importante a uma figura pública respeitada.

Um reparo simbólico após 480 dias?

O Enviado Especial da UE para a Liberdade de Religião ou Crença foi criado em 2016 para apoiar a política externa da UE em matéria de direitos humanos. No entanto, o cargo tem permanecido repetidamente vago ou preenchido apenas parcialmente. A HRWF argumenta que, durante grande parte da existência do gabinete, o mandato não tem sido exercido de forma contínua, apesar dos repetidos apelos de eurodeputados e da sociedade civil.

Esse histórico torna a nomeação mais recente ainda mais delicada. A questão não é se McGuinness é qualificada. Ela claramente é. A questão é se a Comissão está disposta a dar ao cargo os meios necessários para funcionar.

Se o enviado não tiver equipe, orçamento, plano de trabalho visível nem um mecanismo de prestação de contas transparente, a nomeação corre o risco de parecer uma manobra de reputação: uma forma de a Comissão dizer ao Parlamento, às igrejas, às ONGs e aos parceiros internacionais que a vaga foi preenchida, evitando, ao mesmo tempo, o compromisso político e financeiro necessário para tornar o mandato efetivo.

Isso seria particularmente preocupante num momento em que a liberdade de religião ou crença permanece sob pressão em todo o mundo. Minorias religiosas, convertidos, não crentes, humanistas, cristãos, muçulmanos, judeus, budistas, hindus, yazidis, Testemunhas de Jeová, ScientologistsOs bahá'ís e muitos outros enfrentam discriminação, prisão, violência, desaparecimento forçado, exclusão social ou perseguição estatal em diferentes regiões. A UE não pode reivindicar liderança global em matéria de Liberdade de Religião e Fé enquanto trata seu próprio enviado como um mero representante honorário.

Outros já alertaram sobre a estrutura.

A COMECE deu as boas-vindas a McGuinness, mas fez uma observação crucial: o cargo deve ser dotado de um mandato forte e de recursos humanos e financeiros adequados. Essa frase agora parece mais importante do que as próprias felicitações.

Humanistas Internacional A organização também saudou a nomeação, mas alertou para a persistência de problemas estruturais. Questionou a localização do mandato dentro da Comissão Europeia, em vez do Serviço Europeu para a Ação Externa, e apelou à transparência, à apresentação regular de relatórios e a uma abordagem inclusiva que proteja pessoas de todas as religiões e crenças, incluindo as não religiosas.

Essas não são preocupações marginais. Elas vão ao cerne da questão de saber se a diplomacia da UE em relação à liberdade de expressão é operacional ou meramente ornamental.

A liberdade de religião ou crença não pode ser defendida por meio de comunicados de imprensa.

A liberdade de religião ou crença não é uma questão meramente cerimonial. Ela é protegida pelo Artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e pelo Artigo 18 do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. Refere-se ao direito de crer, de não crer, de mudar de crença, de praticar sua religião, de ensinar, de se reunir, de falar, de se vestir, de discordar e de viver sem coerção.

Isso também exige diplomacia prática. Quando pessoas são presas por blasfêmia, quando comunidades religiosas são proibidas, quando cultos pacíficos são invadidos, quando crianças são pressionadas por causa da fé de seus pais ou quando minorias são demonizadas como inimigas do Estado, um enviado precisa ser capaz de agir. Essa ação requer contatos, pessoal, capacidade de viagem, apoio político, acesso às delegações da UE e autoridade para levantar casos delicados.

Um enviado voluntário com despesas de viagem reembolsadas pode participar de eventos. Um enviado com recursos adequados pode influenciar políticas públicas.

A Comissão deveria publicar os fatos.

A Comissão pode resolver esta questão rapidamente. Deve publicar o regime de trabalho do Enviado Especial, incluindo se o cargo é remunerado ou não, se existe um orçamento específico, se há pessoal alocado, como as missões são aprovadas, com que frequência o enviado apresentará relatórios e se a sociedade civil terá um canal estruturado de interação.

Deverá também esclarecer se o enviado tem acesso ao Serviço Europeu de Ação Externa e às delegações da UE de uma forma que permita um acompanhamento significativo em países terceiros.

Sem essa transparência, a nomeação corre o risco de se tornar exatamente o que os críticos temem: não um compromisso renovado da UE com a liberdade de religião ou crença, mas uma medida paliativa para melhorar a reputação após um longo e constrangedor período de vacância.

McGuinness merece um mandato real.

A crítica mais contundente não é dirigida a Mairead McGuinness, mas sim à Comissão.

McGuinness traz consigo experiência, credibilidade e conhecimento do diálogo institucional da UE com atores religiosos e não confessionais. Se a UE leva isso a sério, não deveria enviá-la ao mundo com um título, mas sem as ferramentas necessárias.

Para as vítimas de perseguição religiosa, a diferença não é simbólica. É prática. Elas não precisam que Bruxelas anuncie mais um enviado que não possa agir. Precisam de um gabinete que possa ouvir, intervir, relatar, coordenar e pressionar por mudanças.

A UE disse "Habemus". Agora precisa responder à verdadeira questão: mandato, orçamento e pessoal para o habemas — ou apenas mais uma manobra vazia?