E se as escolas pudessem fazer mais do que ensinar sustentabilidade? E se pudessem testá-la, medi-la e vivenciá-la em tempo real? Em toda a Europa, alunos e professores têm transformado salas de aula em pequenos laboratórios para a mudança ambiental.
Nos últimos quatro anos, escolas e universidades na Finlândia, Portugal, Romênia e Espanha testaram mais de 60 intervenções práticas, desde a instalação de painéis solares e monitoramento do consumo de energia até o plantio de jardins para a biodiversidade e a reformulação de sistemas de reciclagem.
Em uma escola primária de Madri, na Espanha, alunos e professores transformaram a sustentabilidade em um desafio prático: economizar água, reduzir o desperdício e as emissões de CO2 por meio de um animado "mercado" de roupas de segunda mão na escola. As crianças até calcularam sozinhas a economia ambiental, transformando a matemática em ação climática.
Enquanto isso, em Tampere, na Finlândia, alunos do ensino médio repensaram o cardápio do almoço. Desde a organização de degustações de comida vegana até a investigação da sustentabilidade das refeições escolares, eles exploraram como pequenas mudanças, incluindo mais opções vegetarianas, poderiam fazer uma grande diferença.
Essas iniciativas fizeram parte de um esforço mais amplo em escolas e universidades da Europa, realizado por meio de um projeto de pesquisa financiado pela UE com duração de quatro anos, chamado ECF4CLIM, que terminou em dezembro de 2025.
Criando impulso
O que diferenciou essa abordagem não foram apenas as iniciativas em si, mas quem as idealizou. Alunos, professores, diretores escolares e membros da comunidade educacional em geral (como ONGs, municípios e governos regionais) trabalharam juntos em “equipes de sustentabilidade” e comitês, criando soluções para os desafios em suas próprias comunidades.
“Desenvolvemos uma abordagem inovadora que uniu ciência cidadã e pesquisa participativa, envolvendo ativamente alunos, professores e a comunidade educacional em geral”, disse Ana Prades, chefe do Centro de Pesquisa Sociotécnica (CISOT) em Barcelona, parte do Centro Nacional de Pesquisa Energética, Ambiental e Tecnológica da Espanha (CIEMAT), que coordenou o trabalho.
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Sentimos que estávamos fazendo algo com os alunos que ajudaria a disseminar a mensagem da sustentabilidade de forma mais ampla.
Essas equipes e comitês são importantes porque ajudarão as ações de sustentabilidade a continuarem muito além do término do projeto, acrescentou a Dra. Marta Almeida, engenheira ambiental do Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, Portugal.
O objetivo não era simplesmente conscientizar sobre as mudanças climáticas, mas sim ajudar as instituições de ensino a se tornarem locais onde o pensamento e a ação sustentáveis façam parte da cultura cotidiana. Crianças e adultos foram desafiados a refletir criticamente sobre mudanças práticas no dia a dia que poderiam contribuir para a sustentabilidade.
Encontrar tempo em currículos já sobrecarregados nem sempre era fácil. "Os alunos do ensino médio têm uma agenda realmente apertada", disse Niina Mykrä, pesquisadora do Instituto Finlandês de Pesquisa Educacional (FIER) da Universidade de Jyväskylä..
A solução encontrada em Tampere foi introduzir um "clube da sustentabilidade" no currículo escolar e atribuir créditos às aulas participativas, abrindo espaço para que alunos e professores discutissem novas ideias em conjunto.
Os alunos desfrutaram da liberdade de compartilhar suas ideias, enquanto o espírito de equipe incentivou a discussão, a criatividade e o pensamento inovador. Em vez de simplesmente receberem instruções, alunos e professores aprenderam lado a lado, explorando soluções em conjunto.
“Era muito importante que as crianças tivessem autonomia”, disse Mykrä.
Apoiada por pesquisa
Uma parte importante do trabalho do ECF4CLIM foi ajudar as escolas a mensurar os impactos ambientais de suas ações. Os pesquisadores deram aos alunos e funcionários conselhos práticos sobre como monitorar o consumo de energia, a geração de resíduos, a qualidade do ar e a pegada de carbono.
“Desenvolvemos ferramentas como uma calculadora de pegada ambiental que permitiu às escolas avaliar seus impactos em diferentes categorias”, disse Yolanda Lechon, professora pesquisadora do Departamento de Energia do CIEMAT em Madri, que coordenou a iniciativa.
A equipe de pesquisa também forneceu kits de eficiência energética e dispositivos de monitoramento para medir temperatura, umidade, qualidade do ar interno e consumo de energia dentro dos prédios escolares.
Para muitos estudantes, os resultados foram reveladores. Quando os alunos de Madri calcularam o impacto ambiental da produção de roupas, ficaram chocados com a quantidade de água e emissões de carbono necessárias para produzir uma única camiseta, disse Lechon.
Ela acredita que esse tipo de aprendizado prático pode ajudar a tornar a sustentabilidade mais imediata e pessoal. "Sentimos que estávamos fazendo algo com os alunos que ajudaria a disseminar a mensagem da sustentabilidade de forma mais ampla."
Outras atividades transformaram iniciativas ambientais em jogos, com os alunos competindo para melhorar as taxas de reciclagem ou reduzir o desperdício. Ferramentas digitais, jogos e materiais interativos também foram desenvolvidos para apoiar o aprendizado.
Uma estrutura para mudanças duradouras
Um dos principais objetivos dos pesquisadores era ajudar escolas e universidades a manter esses esforços por muito tempo no futuro.
Para apoiar isso, a equipe do ECF4CLIM criou um roteiro para ajudar as comunidades educacionais a se tornarem mais sustentáveis de maneiras que se adequem às suas próprias necessidades locais.
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Era muito importante que as crianças tivessem autonomia.
Desenvolvido por meio de pesquisa, crowdsourcing e testes em situações reais em escolas e universidades participantes, o Roteiro oferece ferramentas práticas para ajudar as escolas a identificar atividades que apoiem a sustentabilidade, bem como as barreiras que podem estar impedindo seu progresso.
Isso também incentiva as escolas a pensarem além de projetos ambientais isolados e, em vez disso, a construírem uma cultura de sustentabilidade mais ampla, envolvendo alunos, professores, líderes escolares e famílias.
“As crianças mais novas em idade escolar podem comunicar o que aprenderam às suas famílias, enquanto os estudantes universitários podem transferir o conhecimento do projeto para seus futuros empregos”, disse Almeida.
Além da sala de aula
O roteiro se baseia em GreenComp, um quadro europeu desenvolvido para ajudar as pessoas a adquirirem os conhecimentos, as competências e as atitudes necessárias para pensar e agir de forma sustentável no dia a dia.
Os pesquisadores do ECF4CLIM enfatizam que a iniciativa não visava apenas a mudança de comportamento individual.
“É importante desenvolver competências coletivas, em vez de depender apenas do indivíduo”, disse Almeida. “Queremos impactar as escolas, mas também precisamos que as mudanças aconteçam em nível nacional.”
Os pesquisadores esperam que o Roteiro ajude outras escolas em toda a Europa a replicar e adaptar iniciativas como equipes de sustentabilidade lideradas por estudantes, monitoramento ambiental e projetos climáticos práticos em suas próprias comunidades.
No total, o projeto envolveu 13 escolas e universidades, 10 parceiros de pesquisa e cerca de 1.300 participantes.
Escolas e universidades, acreditam os pesquisadores, podem desempenhar um papel importante em ajudar as gerações mais jovens a responder aos desafios climáticos e ambientais – não apenas fornecendo informações, mas também dando aos alunos a confiança de que eles mesmos podem moldar as soluções.
Ao transformar escolas e universidades em laboratórios vivos para a sustentabilidade, o projeto ECF4CLIM visava plantar ideias – e hábitos – que pudessem continuar a crescer por muito tempo no futuro.
Esse ímpeto é importante. Envolver as gerações mais jovens dessa forma gera apoio ao Pacto Ecológico Europeu entre as pessoas que desempenharão um papel crucial na transformação da Europa em uma economia mais neutra em carbono e competitiva até 2050.
A pesquisa deste artigo foi financiada pelo Programa Horizonte da UE. As opiniões dos entrevistados não refletem necessariamente as da Comissão Europeia. Se você gostou deste artigo, considere compartilhá-lo nas redes sociais.
