Notícias

A bondade de Cristo liberta as pessoas da maldade demoníaca.

6 min read Comentários
A bondade de Cristo liberta as pessoas da maldade demoníaca.

Por Daniel, Patriarca Romeno

O Evangelho do 5º Domingo depois de Pentecostes nos apresenta três ensinamentos principais:

• Até mesmo os demônios confessam a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e o fato de que Ele é o Salvador do mundo;

• O amor misericordioso de Jesus liberta as pessoas do poder dos espíritos malignos;

• A perda material pode, por vezes, ser uma forma de repreensão para aqueles que estão demasiado escravizados pelo ganho material.

Jesus foi recebido na região dos gadarenos por dois homens possessos por demônios, que eram muito maus, raivosos e perigosos. Eles viviam nos cemitérios, o que simbolicamente demonstra que estavam em estado de morte espiritual, ou seja, em completo isolamento da comunidade. Os dois homens possessos estavam cheios de malícia, odiavam as outras pessoas e eram extremamente agressivos com elas. Na verdade, não eram eles próprios que demonstravam violência contra as pessoas, mas sim os espíritos malignos que os possuíam. O Evangelho nos conta que os espíritos malignos que possuíam os dois usaram suas vozes e gritaram: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” (Mt 8,29).

Com esse grito, os demônios confessam a divindade de Jesus e, ao mesmo tempo, temem o Seu poder justo como Juiz do mundo, que Ele manifestará no fim dos tempos, quando Satanás e todos os seus servos serão punidos. Portanto, os espíritos malignos perguntaram a Jesus: “Vieste para nos atormentar antes do tempo?”, isto é, antes do juízo final do mundo.

O amor misericordioso de Jesus Cristo pelas pessoas é um tormento para os espíritos malignos que odeiam os homens;

O Senhor Jesus Cristo não é indiferente ao sofrimento das pessoas;

Jesus Cristo liberta e cura esses endemoniados para lhes dar liberdade e a dignidade de viver em comunidade;

O valor espiritual da alma humana supera qualquer preço comercial ou material;

Os demônios dividem as pessoas, mas Deus as reúne.

No Evangelho de hoje, aprendemos também que o Senhor Jesus Cristo ensina as pessoas não apenas pelo que diz, mas também pelo que faz. Em cada gesto seu, em cada ação sua, há muitas mensagens espirituais, muitas orientações espirituais para a iluminação da nossa alma.

O Evangelho do Quinto Domingo depois de Pentecostes é chocante, pois revela como os demônios que atormentam as pessoas as usam para fazer outros sofrerem por meio delas. No entanto, o Senhor Jesus Cristo vem para libertar os atormentados pelos espíritos malignos e para os reconduzir à comunhão de amor com Deus e com o próximo.

A obra de Cristo de libertar as pessoas dos espíritos malignos continua em Sua Igreja, em Seu Corpo místico, como uma obra de cura ou libertação de ações demoníacas violentas e paixões escravizantes, bem como de elevação a um estado de amor a Deus e ao próximo. A oração diária do crente e o poder do sinal da Santa Cruz, que o fiel usa frequentemente, afastam o poder dos espíritos malignos. A Santa Cruz tem grande poder, como diz São Paulo em sua primeira epístola aos Coríntios: “A mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1 Coríntios 1:18). Compreendemos, portanto, que o poder da Cruz é o poder do amor humilde de Cristo, o Filho de Deus. A humildade do amor onipotente e misericordioso de Cristo Crucificado e Ressuscitado aterroriza os demônios, porque eles não têm humildade nem amor a Deus e ao próximo. Por causa do orgulho e da ingratidão para com Deus, alguns anjos caíram e se tornaram demônios ou espíritos malignos.

Nesse sentido, a obra de curar a alma dos pecados e das paixões escravizantes é uma luta espiritual entre o Espírito de Cristo, recebido pelo cristão no Batismo, e os espíritos malignos que odeiam o crente, o cristão devoto e humilde. Por essa razão, as orações de entrada ou introdutórias da Igreja Ortodoxa começam com a oração “Rei do Céu”. Por meio dessa oração, pedimos que o Espírito Santo habite em nós, nos purifique de toda impureza e salve nossa alma, ou seja, nos una a Deus pela graça.

A leitura do Evangelho de hoje ilumina nossa alma e nos enche de esperança e confiança na ajuda de Deus, porque se amamos a Cristo, não teremos medo dos demônios. No rito do Batismo, válido por toda a vida do cristão, o sacerdote pergunta à pessoa que está sendo batizada: “Você renuncia a Satanás e a todas as suas obras, a todos os seus anjos, a todo o seu ministério e a toda a sua arrogância?” A resposta é: “Renuncio”. Então ele pergunta: “Você se une a Cristo? E você crê nele?” A resposta é: “Eu me uno a ele! Creio nele como Rei e Deus”.

Se, ao longo da vida, nos unirmos a Deus o máximo possível por meio da oração, da leitura do Evangelho, do cumprimento dos Seus mandamentos e, sobretudo, da participação na Sagrada Eucaristia, seremos fortalecidos espiritualmente e não mais temeremos os espíritos malignos, precisamente porque nos unimos a Cristo, nosso Salvador. Contudo, quando nos afastamos de Cristo, quando a oração enfraquece, quando a fé esfria, quando o nosso amor por Deus e pelo próximo diminui, então nos encontramos em apuros. A libertação de uma pessoa dos espíritos malignos se realiza por meio de uma fé forte, oração fervorosa e jejum rigoroso, aliados ao arrependimento, como preparação para receber o Santíssimo Sacramento da Unção dos Enfermos, durante a leitura, pelo sacerdote, das orações de São Basílio Magno e São João Crisóstomo, que são orações pela expulsão dos espíritos malignos das pessoas atormentadas por eles. Contudo, essas orações não devem ser lidas a qualquer hora e de qualquer maneira, mas sim após uma preparação espiritual especial, em estado de jejum e humildade, arrependimento e purificação espiritual, adquiridos através de uma Confissão sincera.

Oremos a Deus para que conceda a todos a força para vencer as tentações que vêm dos demônios, mas também a força espiritual para sermos misericordiosos, para orarmos pelos outros, especialmente por aqueles que já não podem orar por si mesmos, manifestando assim o amor misericordioso e a ação da graça do Salvador Jesus Cristo em nossas vidas, para a glória da Santíssima Trindade e nossa salvação. Amém!

Fonte em romeno: Daniel, Patriarca da Igreja Ortodoxa Romena, O Evangelho da Glória de Cristo. Sermões aos Domingos do Ano, Bucareste, 2023, p. 126-134/ Daniel, Patriarhul Bisericii Ortodoxe Române, Evanghelia slavei lui Hristos. Predici la Duminicile de peste an, București, 2023, p. 126-134.